Os olhos de Seetah abriram com grande dificuldade, devido o inchaço do seu rosto. Tomada de um profundo sentimento de angústia, sentiu a pressão das cordas que lhe apertam os pulsos e os pés, bem como o cheiro do próprio sangue que lhe escorre pelo rosto, pingando sobre suas vestes surradas. Lembrou-se da primeira vez que havia visto o próprio sangue: tinha pouco mais de doze anos e agachada, colhia batatas para sua mãe, quando sentiu algo estranho e observou que manchas de sangue tomavam os panos de seu saiote. Aos prantos, acreditando ter se ferido, correu para os braços da mãe que a acalmou, falando sobre “sinais” mudança. Conduzindo-a em seguida até a margem do lago e, com algumas ervas que colheu no caminho, pediu para que a menina tirasse a roupa e fechasse os olhos. Com o maço das ervas que mergulhava nas águas, tocava o corpo da menina e entoava um cântico doce e tranqüilizador, sugerindo em seguida que, ainda de olhos fechados, entrasse vagarosamente na água A menina segue as orientações e, quando submersa, sente um calor reconfortante que lhe toma o corpo. Ainda ao som do cântico materno, que parece multiplicar-se tomando todo ambiente, é coberta por uma sensação de paz que a entorpece.
Com tochas nas mãos, as pessoas parecem ferozes, seguindo pela estrada de terra. Em quase oitenta anos, muitas foram às almas que Seetah viu agonizar nas chamas das fogueiras. Conseguiu manter-se viva mais tempo do que qualquer outra pessoa da região, tamanha a fama dos seus “encantamentos”, que chegou aos castelos e a nobreza que, muitas vezes, descrentes dos “prazos indeterminados” proferidos por cléricos ante as condições do Deus Pai, recorriam aos poderes da resolução das suas ervas e ladainhas, corriqueiramente atendidas em “sete dias”, pela da Mãe Terra. Ser inquirida era questão de tempo, desde a chegada do Homem de Vermelho ao mosteiro do vilarejo. Em cem dias, todos os acusados de heresias ou bruxaria, eram capturados e interrogados, sucumbindo aos dias de flagelo do corpo, confessando até o que desconheciam. A morte, diante de tantas mazelas, era um descanso, tamanha a dor que causavam naqueles cujo pecado julgavam imperdoável.
Seetah, amarrada junto a um mastro fixado numa pequena carroça, no alto do morro, vê algumas pessoas ali depositavam madeira e palha, aos seus pés. O Homem de Vermelho, inicia um discurso ensoberbecido em que, em nome da Santa Igreja, exalta o plano de salvação desta para as almas pecadoras do mundo e também, o papel dos nobres na defesa dos interesses da fé católica, sobretudo a Sir Gallefen por sua solicitação para que a bruxa fosse diretamente queimada, sem interrogatório. Seetah levanta a cabeça e, à distância, olha profundamente nos olhos do cavaleiro, demonstrando este, sentir-se como que penetrado por lâminas de mil espadas. Ela então se recorda de quando colhia alguns frutos nas imediações do castelo e foi chamada por Sir Gallefen que, conhecedor de suas práticas, pediu-lhe auxílio: havia sido abandonado pela mulher com quem se casaria e, seu irmão, sabendo desta situação, arquitetava um plano para tomar-lhe o posto, o que se daria em dez dias. Convidado então a seguir até o casebre da velha mulher, lá chegando, lhe entregou em mãos uma pedra preciosa de estima da dama distante. Ela então proferiu palavras de encantamento e afirmou que em sete dias, sua amada voltaria. A sua preterida retornou em cinco dias e, dois dias depois, estavam casados. Seu irmão partiu para lutar no Oriente.
Deslocando então seu olhar, Seetah observa aquele Homem de Vermelho e seu rosto se faz conhecido, quando iluminado por uma tocha: no passado, numa fria madrugada, alguém abriu a portinhola na parte de trás do mosteiro e jogou restos de pães e sopa na vala dos porcos. Seetah aproveitara a ocasião, pegando alguns alimentos para alguns os miseráveis a quem ajudava. Após recolher a comida, reparou que a portinhola ficara aberta. Escondeu-se ao perceber algumas pessoas por ali. Dois homens vestindo mantos com capuz abriram a portinhola, saindo em direção à floresta. Seetah conhecia bem a rotina dos monges: fugas ao vilarejo para troca de pães e outras coisas pelos prazeres dos jovens. Curiosa, entrou para saber como era o mosteiro, se esquivando pelas sombras, observando atentamente a tudo. Desceu por uma escadaria, ouvindo ao longe, gargalhadas. Manteve-se escondida atrás de uma porta a observar: sob uma mesa de madeira, deitado, nu e com mãos e pés amarrados, um rapaz transpirava e gemia, com aparência assustada. Ao seu redor, três Homens de Deus, com vestes vermelhas, lambiam-lhe o corpo. Ao fundo, outro deles, nu e extasiado, falava e urrava com seu livro sagrado em mãos. O rapaz então foi virado de bruços e como que um lobo faminto, o homem nu subiu-lhe pelas costas. De olhos arregalados o jovem soltou um grito que rasgou os as sombras nos corredores do mosteiro.
O discurso do Homem das Vestes Vermelhas se inflamava de ódio a cada palavra. Cerca de quatro décadas passaram desde que ele, então um rapaz, alimentava no mosteiro, os animais sedentos de carne, justificando sua fome, que nunca é saciada.
Seetah observa que, próxima ao pé da fogueira, está uma menina. Logo se recorda que a menos de um ciclo da lua, despertou com batidas na porta de seu casebre, quando uma camponesa pedia socorro com a filha desfalecida nos braços. Constatou que a menina havia brincado com uma planta venenosa, levando às mãos à boca. Foi então que pediu para que a mãe ali a deixasse, voltando no outro dia pela tarde. Ventos balançavam a porta do casebre e os objetos em seu interior, anunciando que a morte estava próxima. Seetah tomou a menina pelos braços e saiu em disparada, na direção do lago, sentindo como que golpes que lhe passassem perto da cabeça e costas. Ao chegar, a lua iluminava a superfície do lago onde prontamente Seetah entrou com a menina, molhando seus cabelos e colocando-lhe água em sua boca, entoando o cântico que sua mãe ensinara. O calor então lhes subiu pelo corpo e a criança despertou.
Seetah levanta a cabeça e vê a mãe da menina, com expressão de ódio, tira-la de perto. Aos poucos o fogo tomava a madeira, chegando aos pés e vestes da velha mulher. Com lágrimas nos olhos a menina observava a distância às labaredas que iluminavam os rostos desejosos de morte, ao redor. Foi então que os lábios da bruxa se abriram e suas palavras ecoaram, na direção do clérico:
- Tu verás com olhos de carne a queda da sua mãe e saberá que mil anos de poder nada fez pela fé dos homens... E o teu Deus, então, estará mais distante de ti. Todas as mulheres que tu profanou e matou em nome da tua mãe serão vingadas, por cada gota de sangue que não se derramou por ordem da natureza. Toda tua sujeira será descoberta e contada... Os nobres cairão em desgraça, após se embebedar com tanto poder, e terão suas cabeças cortadas! E quando o ouro for o Deus de quase todos, tua mãe será apenas um colo magro e sem calor... E os mercadores do ouro dominarão o mundo por tempo indeterminado. Os camponeses verão que o Deus Pai nada disso determinou, mas jamais terão forças para comer aquilo que ajudarão a preparar. Mas antes de tudo isso, vocês verão que nada podem ante a natureza: em pouco mais que três ciclos do Sol, manchas negras surgirão na pele e os levarão a morte... E os mortos contaminarão o solo e às águas e tua igreja será depósito de corpos! E o céu de que tanto falas, não terá lugar para todos...
As palavras de Seetah perderam-se em meio às labaredas que lhe subiam o corpo. Todos se afastaram e a pequena menina, puxada por sua mãe, olhava para trás, buscando como que alguma explicação. E a última visão de Seetah foi para o futuro. Sete anos depois, num dia claro, a menina chega em seu casebre, com o corpo todo molhado. A mãe a questiona sobre o que havia acontecido. Ela diz que havia se ferido e manchado de sangue as vestes, indo até o lago se lavar. A menina então, começava a viver, de acordo com a nova a nova vida que uma vez, lhe fora proporcionada. A alma de Seetah desprende-se com a fumaça.
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